CALVIN

Você já viu uma criança conversando sozinha? Ou melhor, sozinha não, com o seu amigo imaginário? Muitas vezes, essa amizade é tão cheia de detalhes que pega a família de surpresa. Embora esse assunto não seja muito comum, muitas crianças experimentam esse tipo de companhia em algum momento da infância.

O amigo imaginário ou invisível é uma criação da criança e faz parte do chamado ‘pensamento mágico’ infantil. É um personagem criado com a intenção de auxiliar o desenvolvimento, a compreensão de acontecimentos e a elaboração de sentimentos que surgem em diferentes situações. O amigo imaginário funciona como uma válvula de escape que proporciona um alívio emocional.

Na infância, conversar e brincar com um amigo invisível não deve ser motivo de preocupação, mas geralmente os pais ficam alarmados achando que há algo de errado. É muito comum que as crianças dos três aos seis anos inventem este tipo de fantasia. Essas experiências de faz de conta ajudam as crianças a criarem recursos para lidar com situações reais, como as de conflito, amor, ansiedade, medo ou mesmo desenvolver a própria criatividade.

Além de ajudar na formação da personalidade, o diálogo fantasioso com esse amiguinho aprimora a linguagem oral, pois, normalmente, as crianças ficam conversando sozinhas por horas. Esse é um exercício para futuros diálogos com outras crianças ou adultos com os quais se relaciona.

Para os mais novos, o amigo “de mentirinha” é quase sempre um companheiro de brincadeiras que pode estar presente à mesa na hora das refeições, pode ser chamado pelo nome, mas nem sempre acompanha a criança durante todo o dia. Alguns pesquisadores afirmam que praticamente todos nós temos um parceiro imaginário em um determinado estágio do desenvolvimento, porém, ele quase nunca é descoberto pelos adultos e a própria pessoa normalmente não se lembra disso mais tarde.

As crianças também dão vida a um bicho de pelúcia ou a uma boneca de que gostam muito onde lhe atribuírem personalidade própria. Com isso, os amigos visíveis como Hobbes (ou Haroldo na versão brasileira) – o tigre de pano dos quadrinhos americanos Calvin e Haroldo – também se tornam companheiros imaginários.

De tempos em tempos, portanto, crianças e adolescentes compensam a realidade com a ajuda desse parceiro imaginário, e assim combatem sentimentos de abandono, solidão, perda ou rejeição. É possível, assim, desfrutar de um relacionamento de amor e apoio, além de companhia, independentemente das circunstâncias externas. Como consequência, essas figuras quase sempre desaparecem assim que a criança encontra amigos reais ou se adapta à nova situação.

Por meio do amigo imaginário, as crianças:

  • Liberam seus sentimentos positivos e negativos;
  • Projetam seus conflitos, medos e fobias diante de novas situações, como a de ter que abandonar as fraldas, ir à creche ou a escola, mudar-se de casa, ou ter que enfrentar algum desafio ou realidade diferente;
  • Adquirem mais confiança em si mesmos. Em sua “lógica”, se seu amigo imaginário consegue vencer o mal, ele também é capaz de fazê-lo;
  • Se sentirão mais fortes, e capazes. E isso favorecerá sua autoestima;
  • Controlarão melhor suas emoções;
  • Entendem da melhor maneira o ponto de vista da outra pessoa, neste caso, do seu amigo imaginário;
  • Desenvolvem habilidades sociais.

Algumas pesquisas também sugerem que crianças que criam amigos invisíveis gostam de interagir com outras pessoas e, justamente por isso, inventam uma para sempre estarem acompanhadas. 

As crianças também usam o artifício do amigo imaginário para aprender melhor os conceitos de certo e errado. É por isso que o amigo invisível às vezes leva a culpa pelas “artes” que a criança faz: “Não fui eu que quebrei, foi o Juca!”.

Quando esse tipo de coisa acontecer, resista à tentação de dizer: “Que Juca nada, você sabe que ele está só na sua imaginação!”. Só explique que não é legal quebrar um brinquedo, que é preciso dar valor às coisas, sem entrar no mérito do culpado. Pode ser que ele até resolva dar uma bronca no Juca, o que só mostra que ele aprendeu a lição.

O ideal é não dar muita bola para a história. Por um lado, não negue a existência do amigo imaginário, mas por outro não entre na dança, fingindo enxergar o amigo ou conversando com ele.

O que pode acontecer se você incorporar o amigo imaginário à vida da criança é que ele vai “existir” por bem mais tempo. Observar a interação da criança com o amigo imaginário pode dar aos pais boas pistas sobre os sentimentos do filho. Se o colega invisível está com medo de monstros debaixo da cama, por exemplo, pode ser que esse medo seja da própria criança.

O melhor é tratar tudo com naturalidade. É uma fase transicional, que ficará para trás quando o vínculo com o mundo externo estiver mais consolidado e for possível ter experiências seguras com um amigo real. Os pais nunca devem ignorar os relatos do filho. Só é preciso ficar de olho no que fala e faz. Se deixar de brincar com os amigos ou não quiser sair de casa por causa do amigo imaginário é motivo para investigar.

Um belo dia, a criança lhe dirá que o amigo foi embora, e esse também é um processo normal. Por ser uma fase passageira, normalmente, a criança encontra formas de abandoná-la sozinha.

O momento de o amigo invisível ir embora varia de criança para criança, mas, geralmente, esse abandono acontece perto dos 7 ou 8 anos. De repente, ela percebe que ele não faz mais sentido porque já encontrou outros caminhos para lidar com a realidade. O que antes vinha do pensamento é transformado em sentimentos reais, próprios da maturidade emocional e cognitiva.

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