autocompaixao

O elefante acorrentado” de Jorge Ducray é uma história com um grande ensinamento e poder libertador. É a história de um menino que gostava de ir ao circo e começa a se perguntar por que é que o elefante, um animal enorme e forte, se mantinha preso a uma corrente presa por uma pequena estaca e não se libertava. Ao longo dos anos foi questionando os adultos na tentativa de compreender. Um dia alguém lhe deu uma explicação que lhe fez muito sentido. O elefante enorme foi em tempos um elefante pequeno e nessa altura tentou de várias formas soltar a pequena estaca, até que um dia sentindo-se vencido, acreditou que nunca seria capaz de se libertar e desistiu de fazer. O elefante foi crescendo e tornou-se num enorme elefante adulto que apesar de ter força suficiente para arrancar a pequena estaca acreditava que não seria capaz e por isso não voltou a tentar.

É verdade que quando somos crianças somos mais frágeis, dependentes das amarras dos outros e imaturos do ponto de vista cognitivo e emocional, o que não nos permite resolver situações mais difíceis. Existe um dia, como o elefante, em que passamos a acreditar que não somos capazes ou que somos assim, esta visão de nós próprios cresce em nós à medida que crescemos e vai influenciar a forma como nos vemos e como nos relacionamos com os outros e com o mundo. Passa a ser uma verdade absoluta. Perdemos a noção de que crescemos e nos tornamos mais fortes, que adquirimos e desenvolvemos competências e que, se tentássemos novamente nós conseguiríamos resolver muitas das situações problemáticas que antes não conseguimos.

Quando falamos assim é fácil de compreender o outro, e o que o impediu, entendemos o dilema do elefante, mas e quando se trata de nós mesmos? Temos a mesma compreensão e cuidado? Geralmente somos mais rígidos com nós mesmos em relação a coisas que, se acontecesse com o outro, teríamos mais compaixão. Imagine um amigo íntimo que não conseguiu uma promoção no trabalho. Jamais diremos a ele: “você não serve pra esse cargo” ou “você nunca vai chegar a lugar nenhum”. Provavelmente, diríamos: “você pode tentar de novo” ou “talvez você deva procurar um trabalho que te valorize mais”.

De uma forma geral, estamos acostumados com a ideia de compaixão pelo outro, reconhecer que o outro está sofrendo e que posso fazer algo para amenizar essa dor sendo bondoso. A Autocompaixão por outro lado, presume que esta bondade seja direcionada a nós mesmos. No fundo, destaca a importância de reconhecermos que somos seres humanos, imperfeitos, com fragilidades e que acima de tudo é fundamental ter uma atitude de aceitação, carinho e bondade mais do que uma atitude de autocrítica, pena e julgamento perante nós mesmos. Implica, portanto, estar aberto ao próprio sofrimento, experienciando sentimentos de cuidado e de compreensão para com você mesmo.

Ao cuidarmos de nós mesmos de forma bondosa, somos menos autocríticos e fazemos avaliações mais realistas e adequadas dos nossos desempenhos. Apresentar uma atitude de Autocompaixão nos encoraja a mudar de forma tolerante e compreensiva quando necessário, desejar bem-estar a nós mesmos, mas também a corrigir os comportamentos inadequados.

Imagine como você reagi­ria diante de uma criança com pro­blemas na escola. Muitos pais ofereceriam ajuda a ela, mas quando adultos se encontram em situações seme­lhantes, muitos caem em um ciclo de autocrítica e negatividade. Isso deixa as pessoas ainda menos motivadas para efe­tuar mudanças. A razão pela qual você não deixa seu filho comer um pote de sorvete por dia é que você se preocupa com ele, então se você se preocupa consigo mesmo, vai fazer o que é saudável pra você e não o que fará mal.

Uma pesquisa feita com crianças mostrou que o grupo que tinha mais Autocompaixão rendia em média 25% a mais nos estudos após uma nota ruim. Quando uma criança vai mal em uma prova, ela pode encarar o fato através da vergonha e da autocrítica, ao se sentir um idiota ou estúpido por não ter conseguido. A saída da Autocompaixão passa por outro caminho, a pessoa toma consciência que não se sente bem com a falha, reconhece que matemática é um pouco difícil para ela, mas que está tentando aprender.

As pessoas que pensam através da Autocompaixão se permitem errar, desligar a cabeça e começar de novo. Elas focam no que têm em comum com os outros, sabem que somos humanos e todos erramos, então não precisamos ser melhores que ninguém para nos sentirmos bem.

A Autocompaixão não deve ser confundida com autoestima, que muitas vezes é construída através da comparação com o outro, podendo muitas vezes ser abalada por alguém que simplesmente faz melhor do que nós em determinada situação, e nem com autopiedade que é a pena de si mesmo. Trata-se, basicamente, de ser compreensivo e gentil consigo mesmo, sem ficar se culpando ou criticando demais. Cada vez mais pesquisas têm mostrado que cultivar essa atitude faz bem para a sua saúde mental ajudando a reduzir o stress, por exemplo, entre outros benefícios:

  • A Autocompaixão aumenta a motivação e a vontade de fazer diferente;
  • A Autocompaixão dá uma perspectiva mais ampla das coisas e uma melhor capacidade de decisão;
  • A Autocompaixão dá mais resiliência, ou seja, o recuperar de um fracasso e o aprender com os erros de um modo mais rápido;
  • A Autocompaixão dá mais inteligência emocional, no sentido de melhor regular as emoções, sabendo identificá-las e expressá-las melhor nas suas relações;
  • A Autocompaixão diminui aansiedade, a depressão e o stress e aumenta a sensação de bem-estar;
  • A Autocompaixão melhora a autoconfiança e autoestima

É uma realidade que nós não temos o costume de ter Autocompaixão, somos criados para nos cobrar, ser rígido com nós mesmos, ter disciplina para alcançar bons resultados. Porém sentir Autocompaixão pode ser aprendido e treinado, por exemplo, em situações em que habitualmente se critica, mostre a você mesmo como já foi bom em outras coisas e como é bom em fazer outras. Seja compreensivo e tolerante consigo mesmo, valorize-se independente de ter um bom ou mau desempenho, você é mais do que os seus resultados.

Se tiver dificuldade em se tratar bem, pense nos momentos em que se sentiu triste, estressado e em sofrimento. Como se sentiria se um amigo seu se sentisse assim? Provavelmente iria tratar com carinho e desejaria que o seu amigo não sofresse. Conseguiria sentir isto por você em momentos difíceis? Comece a se tratar como um amigo muito querido e diga a si mesmo palavras de conforto, alimente o sentimento de amor por si mesmo, não se critique e não se julgue. Afinal somos todos ser humanos imperfeitos!

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