Quatro adolescentes, com idades entre 13 e 16 anos, torturaram e tentaram matar outra jovem, de 14 anos, na última semana, no município de Trindade, em Goiás. As menores, motivadas por ciúmes, chegaram a cavar uma cova nos fundos da residência de uma delas para enterrar o corpo da rival, e de acordo com a Polícia Civil, elas confessaram com riqueza de detalhes.

Além da crueldade na ação das meninas, que já chocou a sociedade, o que mais impressionou foi a frieza com que as adolescentes relataram o crime, e a ausência de remorso ou arrependimento quando reafirmaram que só se arrependem de não terem conseguido matar a vítima.

Certos comportamentos como matar aula, mentir, manipular, demonstrar insensibilidade ao sentimento alheio podem surgir durante o desenvolvimento normal de crianças e adolescentes. Portanto, para diferenciar a normalidade da psicopatologia, é importante verificar se esses comportamentos ocorrem uma vez ou outra de modo isolado ou se ocorrem com frequência, representando um desvio do padrão de comportamento esperado para pessoas da mesma idade e sexo em uma determinada cultura.

Assim comportamentos anti-sociais visto muitas vezes como rebeldia e delinquência, são frequentemente encontrados em adolescentes, porém, esses comportamentos podem aparecer precocemente na infância e perdurar na fase adulta, caracterizando o quadro psiquiátrico de Transtorno de Personalidade Antissocial. Na fase da infância e adolescência, esses comportamentos, quando aparecem de modo exagerado e persistente, juntamente com outros sintomas, se encaixam em outra psicopatologia, o Transtorno de Conduta.

O Transtorno de Conduta se caracteriza por um padrão repetitivo e persistente de conduta anti-social, agressiva ou desafiadora, em crianças e adolescentes por no mínimo seis meses. O portador desse transtorno pode apresentar os seguintes comportamentos:

  • Não ter consideração pelos sentimentos alheios, direitos e bem estar dos outros, supervalorizando seu exclusivo prazer;
  • Ausência de um sentimento apropriado de culpa e remorso;
  • Demonstração de comportamento insensível;
  • Hábito de acusar seus companheiros e tentar culpar qualquer outra pessoa ou circunstância por suas más ações;
  • Baixa tolerância a frustrações e crises de irritabilidade com explosões temperamentais e agressividade exagerada;
  • Crueldade com outras pessoas e/ou com animais, não é raro que a violência física possa assumir a forma de estupro, agressão ou, em outros casos, homicídio.

Quanto mais tardio for o início desse quadro, menor a propensão de desenvolver um Transtorno da Personalidade Antissocial na idade adulta, e a incidência entre homens e mulheres é quase o mesmo, sendo que os níveis de gravidade são:

  • Leve: Há poucos problemas de comportamento, e tais problemas causam danos relativamente pequenos a outros, tais como, por exemplo, mentiras, problemas na escola e permanência na rua à noite sem permissão;
  • Moderado: O número de problemas de conduta e o efeito sobre os outros são intermediários entre “leves” e “graves”, onde já pode haver furtos sem confronto com a vítima, vandalismo e uso de fumo e/ou outra droga;
  • Grave: Muitos problemas de conduta estão presentes na forma grave do Transtorno de Conduta, problemas que causam danos consideráveis a outros, tais como, sexo forçado, crueldade física, uso de arma, roubo com confronto com a vítima, arrombamento e invasão.

Quanto mais jovem o adolescente, e mais leves forem os sintomas, maior a probabilidade do adolescente se beneficiar de uma psicoterapia. Quando se trata de adolescente que já cometeu delitos, por exemplo, observa-se uma maior resistência à psicoterapia, podendo ser útil o envolvimento com profissionais especializados no manejo de jovens com comportamentos antissociais através de oficinas de artes, música e esportes.

Por meio das oficinas, o adolescente tem a oportunidade de estabelecer vínculo afetivo com os profissionais responsáveis pelas atividades, além de perceber-se capaz de criar, o que favorece o desenvolvimento da auto-estima. Sempre que possível, a família dos pacientes deve ser incluída no processo terapêutico.

Vale lembrar sempre que esses adolescentes com transtornos de conduta experimentam rejeição social, isolamento e, em muitos casos, apresentam autoestima comprometida, causando sofrimento e desconforto. Assim, o tratamento mais efetivo é aquele que envolve a combinação de diferentes estratégias junto ao adolescente, à família e à escola, havendo um esforço conjunto de todos eles.

E o principal, ao contrário do que acontece com os adultos, existe uma chance de uma criança com transtorno de conduta mudar seu padrão de comportamento.

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