suicidio

Ainda na mesma linha e seguindo o tema ligado ao Setembro Amarelo, podemos dizer que o suicídio é definido como um ato premeditado executado pelo próprio indivíduo, cuja intenção é sua própria morte, de uma forma consciente e intencional. No entanto também fazem parte do que acostumamos chamar de comportamento suicida: os pensamentos, os planos e a tentativa de suicídio.

O suicídio deve ser considerado como o resultado de uma série de fatores que se acumulam na história do indivíduo, e não pode ser considerado como causa de apenas determinados acontecimentos pontuais de sua vida. É a consequência final de um processo.

O suicídio se tornou uma questão de saúde pública em todos os países, e é possível prevenir o suicídio, desde que, além de outras medidas, os profissionais de saúde, estejam aptos a reconhecerem os fatores de risco presentes, a fim de determinarem as medidas necessárias para reduzir tal risco e evitar o suicídio.

No entanto diversos fatores podem impedir uma identificação precoce e, consequentemente, a prevenção do suicídio. Dois aspectos importantes são o estigma e o tabu relacionados a esse assunto. Durante séculos de nossa história, por razões religiosas, morais e culturais o suicídio foi considerado um grande “pecado”, talvez o pior deles, por isso ainda temos medo e vergonha de falar abertamente sobre esse assunto. Lutar contra esse tabu é fundamental para que a prevenção ao suicídio seja bem-sucedida.

Dessa forma há alguns mitos e verdades relacionados a esse tema:

Mitos:

  • O suicídio é uma decisão individual, já que cada um tem pleno direito a exercitar o seu livre arbítrio;
  • Quando uma pessoa pensa em se suicidar terá risco de suicídio para o resto da vida;
  • As pessoas que ameaçam se matar não farão isso, querem apenas chamar a atenção;
  • Se uma pessoa que se sentia deprimida e pensava em suicidar-se, em um momento seguinte passa a se sentir melhor, normalmente significa que o problema já passou;
  • Quando um indivíduo mostra sinais de melhora ou sobrevive a uma tentativa de suicídio, está fora de perigo;
  • Não devemos falar sobre suicídio, pois isso pode aumentar o risco;
  • É proibido que a mídia aborde o tema suicídio.

Verdades:

  • Os suicidas estão passando quase invariavelmente por uma doença mental que altera, de forma radical, a sua percepção da realidade e interfere em seu livre arbítrio. O tratamento eficaz da doença mental é o pilar mais importante da prevenção do suicídio. Após o tratamento da doença mental o desejo de se matar desaparece;
  • O risco de suicídio pode ser eficazmente tratado e, após isso, a pessoa não estará mais em risco;
  • A maioria dos suicidas fala ou dá sinais sobre suas ideias de morte. Boa parte dos suicidas expressou, em dias ou semanas anteriores seu desejo de se matar;
  • Se alguém que pensava em suicidar-se e, de repente, parece tranquilo, aliviado, não significa que o problema já passou. Uma pessoa que decidiu suicidar-se pode sentir-se “melhor” ou sentir-se aliviado simplesmente por ter tomado a decisão de se matar;
  • Um dos períodos mais perigosos é quando se está melhorando da crise que motivou a tentativa, ou quando a pessoa ainda está no hospital, na sequência de uma tentativa. A semana que se segue à alta do hospital é um período durante o qual a pessoa está particularmente fragilizada. Como um preditor do comportamento futuro é o comportamento passado, a pessoa suicida muitas vezes continua em alto risco;
  • Falar sobre suicídio não aumenta o risco, muito pelo contrário, falar com alguém sobre o assunto pode aliviar a angústia e a tensão que esses pensamentos trazem;
  • A mídia tem obrigação social de tratar desse importante assunto de saúde pública e abordar esse tema de forma adequada. Isto não aumenta o risco de uma pessoa se matar; ao contrário, é fundamental dar informações à população sobre o problema, onde buscar ajuda etc.

Atualmente a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio, e a cada três segundos uma pessoa atenta contra a própria vida. As taxas de suicídio vêm aumentando de forma global, e estima-se que até 2020 poderá ocorrer um incremento de 50% na incidência anual de mortes por suicídio em todo o mundo. Além disso, cada suicídio tem um sério impacto na vida de pelo menos outras seis pessoas.

Os dois principais fatores de risco de suicídio são:

  • Tentativa prévia de suicídio: Pacientes que tentaram suicídio previamente têm de cinco a seis vezes mais chances de tentar suicídio novamente. Estima-se que 50% daqueles que se suicidaram já haviam tentado previamente.
  • Doença mental: Sabemos que quase todos os suicidas tinham uma doença mental, muitas vezes não diagnosticada, frequentemente não tratada ou não tratada de forma adequada. Os transtornos psiquiátricos mais comuns incluem depressão, transtorno bipolar, alcoolismo e abuso/dependência de outras drogas e transtornos de personalidade e esquizofrenia. Pacientes com múltiplas comorbidades psiquiátricas têm um risco aumentado, ou seja, quanto mais diagnósticos, maior o risco.

Mas também se destacam outros fatores de risco:

  • Desesperança, desespero, desamparo e impulsividade: É preciso estar atento, pois a desesperança pode persistir mesmo após a remissão de outros sintomas depressivos. Impulsividade, principalmente entre jovens e adolescentes, se destaca como importante fator de risco. A combinação de impulsividade, desesperança e abuso de substâncias pode ser particularmente letal.
  • Idade: O suicídio em jovens aumentou em todo o mundo nas últimas décadas, os comportamentos suicidas entre jovens e adolescentes envolvem motivações complexas, incluindo humor depressivo, abuso de substâncias, problemas emocionais, familiares e sociais, história familiar de transtorno psiquiátrico, rejeição familiar, negligência, além de abuso físico e sexual na infância. O suicídio também é elevado entre os idosos, devido a fatores como: perda de parentes, sobretudo do cônjuge; solidão; existência de enfermidades degenerativas e dolorosas; sensação de estar dando muito trabalho à família e ser um peso morto para os outros.
  • Gênero: Os óbitos por suicídio são em torno de três vezes maiores entre os homens do que entre mulheres. Inversamente, as tentativas de suicídio são, em média, três vezes mais frequentes entre as mulheres. Papéis masculinos tendem a estar associados a maiores níveis de força, independência e comportamentos de risco, assim nos homens, a solidão e o isolamento social são os principais fatores associados. Mulheres se suicidam menos porque têm redes sociais de proteção mais fortes e se engajam mais facilmente do que os homens em atividades domésticas e comunitárias, o que lhes proporciona um sentido de participação até o final da vida. Atualmente, há evidências de que os conflitos em torno da identidade sexual causem um maior risco de comportamento suicida. Entretanto, não se deve perder a presença de qualquer transtorno mental associado, bem como abordar as questões mais óbvias dos vários graus de aceitação social e estar de acordo com os pontos de vista culturais e individuais de cada um. Ressalta-se que no atestado de óbito não consta orientação sexual, apenas gênero masculino e feminino.
  • Doenças clínicas não psiquiátricas: As taxas de suicídio são maiores em pacientes com câncer; HIV; doenças neurológicas, como esclerose múltipla, doença de Parkinson, doença de Huntington e epilepsia; doenças cardiovasculares, como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular encefálico; doença pulmonar obstrutiva crônica; além de doenças reumatológicas, como o lúpus eritematoso sistêmico. Pacientes com doenças clínicas crônicas apresentam comorbidades com transtornos psiquiátricos, com taxas variando de 52% a 88%. Portanto, é necessário rastrear sintomas depressivos e comportamento suicida nesses pacientes, especialmente diante de problemas de adesão ao tratamento.
  • Eventos adversos na infância e na adolescência: Maus tratos, abuso físico e sexual, pais divorciados, transtorno psiquiátrico familiar, entre outros fatores, podem aumentar o risco de suicídio. Na assistência ao adolescente, os médicos, os professores e os pais devem estar atentos para o abuso ou a dependência de substâncias associados à depressão, ao desempenho escolar pobre, aos conflitos familiares, à incerteza quanto à orientação sexual, à ideação suicida, ao sentimento de desesperança e à falta de apoio social. Um fator de risco adicional de adolescentes é o suicídio de indivíduos que o adolescente conhecia pessoalmente.
  • História familiar e genética: O risco de suicídio aumenta entre aqueles com história familiar de suicídio ou de tentativa de suicídio. Estudos de genética epidemiológica mostram que há componentes genéticos, assim como ambientais envolvidos. O risco de suicídio aumenta entre aqueles que foram casados com alguém que se suicidou.
  • Fatores sociais: Quanto maiores os laços sociais em uma determinada comunidade, menores seriam as taxas de mortalidade por suicídio. Desempregados com problemas financeiros ou trabalhadores não qualificados têm maior risco de suicídio, pois a taxa referente a mortes deste tipo aumenta em períodos de recessão econômica, principalmente nos três primeiros meses da mudança de situação financeira ou de desemprego. Viver sozinho parece aumentar o risco de suicídio, com taxas mais elevadas entre indivíduos divorciados ou que nunca se casaram.

Agora passando para os Fatores de Proteção pode se dizer, que são menos estudados e geralmente são dados não muito consistentes, incluindo:

  • Aautoestima elevada;
  • Bom suporte familiar;
  • Laços sociais bem estabelecidos com família e amigos;
  • Religiosidade independente da afiliação religiosa e razão para viver;
  • Ausência de doença mental;
  • Estar empregado;
  • Ter crianças em casa;
  • Senso de responsabilidade com a família;
  • Gravidez desejada e planejada;
  • Capacidade de adaptação positiva;
  • Capacidade de resolução de problemas e relação terapêutica positiva, além de acesso a serviços e cuidados de saúde mental.

Durante uma avaliação do risco de suicídio em um indivíduo, os fatores de proteção não devem ser usados para ofuscar aqueles fatores que identificam o risco de suicídio.

Analisando o outro lado da história, para cada suicídio consumado, muitas pessoas deixadas para trás precisam lidar com a dor da perda. Essas pessoas são chamadas de sobreviventes de suicídio. O luto em si é um processo natural e esperado para se lidar com a morte, porém o luto por suicídio possui características específicas que precisam ser trabalhadas, como os sentimentos de culpa, vergonha e busca contínua do porquê. Pesquisas demonstram que os efeitos desse luto tendem a ser mais intensos e prolongados.

O luto do suicídio descreve o período de ajustamento a uma morte por suicídio que é experimentado por membros da família, amigos e outros contatos do falecido que são afetados pela perda. Cerca de 7% da população é exposta ao luto por suicídio a cada ano. Dados de pesquisas estimam que 60 pessoas sejam intimamente afetadas em cada morte por suicídio, incluindo família, amigos e colegas de classe.

A dinâmica familiar também costuma ser bastante afetada, prejudicando as tarefas do cotidiano e as formas de comunicação entre seus membros, além da presença do sentimento de isolamento e preconceito. Muitas vezes as pessoas não sabem como ajudar, ou têm dificuldades em lidar com a morte de alguém por suicídio e acabam deixando os sobreviventes ainda mais sozinhos. Muitas pessoas acabam julgando os familiares e transferindo para eles a “culpa” pelo suicídio de seu ente querido.

Os sobreviventes, na maioria das vezes, precisam exatamente dos mesmos cuidados que outras pessoas que estejam de luto: apoio, compreensão, paciência, companhia, presença, e é importante lembrar que não se deve apressar o luto. Cada um tem seu tempo e cada pessoa expressa seu luto de forma particular, alguns preferem se isolar por um período e outros preferem falar.

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