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“Os ciumentos não precisam de motivo para ter ciúme. São ciumentos porque são. O ciúme é um monstro que a si mesmo se gera e de si mesmo nasce.” 

                                                                                             William Shakespeare

Há mais de 400 anos, William Shakespeare tratou da “doença da suspeita” em uma de suas obras mais populares: Otelo, o mouro de Veneza. A desconfiança de que a mulher mantinha relacionamento com um rapaz mais jovem, desconfiança despertada e alimentada por insinuações de um subordinado, Iago, o levou a buscar e a acreditar ter encontrado provas da traição em fatos triviais. O escritor se referia ao ciúme como “o monstro de olhos verdes”, uma metáfora sobre a cegueira induzida pelo sentimento que faz a pessoa enxergar como provável ou certo o que apenas tem a possibilidade de acontecer.

O ciúme é um sentimento comum em todas as relações humanas, seja entre irmãos, amigos, pais e filhos, colegas de colégio ou empresa, ou namorados. Até mesmo de objetos somos capazes de sentir ciúmes. O sentimento que toma conta de nós quando sentimos ciúme traz a sensação de que há um intruso querendo tomar nosso lugar em uma relação na qual não cabe mais ninguém.

Então o que é o Ciúme? Ciúme é, simplesmente, o medo de perder alguém que se ama para outra pessoa. Segundo Evandro Ghedin, há quatro tipos de ciúmes:

  • Reação emocional normal: trata-se de um sentimento transitório, que não condiciona a vida de quem o sente.
  • Reação emocional desmedida: afeta, sobretudo, as relações amorosas. Pode ou não ter sido precedida de situações de infidelidade
  • Ciúme como traço distinto da personalidade: típico dos que têm personalidade desconfiada. O ciúme afeta todas as áreas da vida de uma pessoa: família, amor e relações de trabalho. Em geral é característico de pessoas calculistas, que enxergam ameaças onde elas não existem e estão convencidas de que seu ponto de vista é uma verdade indiscutível. Está ligado ao chamado Transtorno Paranoico de Personalidade.
  • Síndrome de Otelo: um distúrbio caracterizado por pensamentos delirantes de ciúme. O delírio que alimenta o ciúme pode ser parte de um transtorno crônico ou paranóia, mas também pode indicar um quadro de demência por deterioração do córtex cerebral ou de alcoolismo crônico.

Assim, o ciúme normal é transitório e baseado em fatos, sendo que o maior desejo é preservar o relacionamento. Algumas pessoas o entendem como prova de amor, zelo ou valorização do parceiro. Outros o consideram uma prova de insegurança e baixa autoestima.

Já no ciúme patológico o ciumento cria nas suas fantasias a presença de um rival e passa a ter um desejo obsessivo de controle total sobre os sentimentos e comportamentos do parceiro. Caracteriza-se por ser exagerado, sem motivo aparente, deixando o ciumento absolutamente inseguro, se tornando um controlador da liberdade do outro, podando qualquer atividade que o parceiro queira fazer sem que ele esteja presente.

As dúvidas se transformam em ideias supervalorizadas, levando a pessoa a verificar se ela tem algum fundamento. Assim passa a checar celulares e ligações recebidas constantemente, quer saber quem enviou mensagens, que e-mails recebeu e por qual motivo, com quem falou e sobre o que, onde está e a que horas volta, quem são os amigos e o motivo para ter essas amizades. Começa a imaginar se a pessoa se arruma para sair, mesmo que seja para o trabalho, é porque está “se arrumando para encontrar o amante”, se há algum atraso é motivo de brigas e questionamentos intermináveis, e por mais que tente aliviar seus sentimentos, nunca estará satisfeito, permanecendo o mal estar da dúvida. Enfim, a vida a dois transforma-se num verdadeiro martírio.

Geralmente quem sofre os “ataques” do parceiro alimenta seu ciúme, sem saber, à medida que concorda em se submeter ao que o outro pede. Por exemplo: se, ao ser questionado sobre quem lhe enviou e-mails, mesmo no trabalho, ele responder e der satisfações, o outro se sentirá no direito de fazer sempre, sendo cada vez mais incisivo.

A pessoa que convive com o ciumento deve aprender a colocar limites, não alimentando a dinâmica doentia do parceiro, e não deixando de fazer suas coisas ou falar com seus amigos só porque o outro quer. Ele acaba cedendo às pressões para evitar brigas, o que lhe parece mais fácil, mas o resultado é catastrófico, pois quando menos imaginar perceberá o quanto está agindo em função do outro e se deixando de lado, submetendo-se, anulando-se por completo. E o pior: nada satisfaz ao parceiro, que vai exigir sempre mais, pois, como já foi dito, a sensação da dúvida permanece.

Desta forma as brigas tornam-se frequentes e o clima de tensão toma conta da relação, já que qualquer coisa é motivo para reacender o ciúme. No entanto, há momentos de total tranquilidade intercalados a estas crises de ciúmes, o que deixa a “vítima” do ciúme confusa, tirando a vontade de abandonar a relação que muitas vezes é tentadora.

Mas observando melhor quem é a “vítima aqui”? Aquele que sofre com as cobranças e vive numa verdadeira prisão ao lado de alguém possessivo e controlador ou este, que vive em constante tensão e desconfiança, perdendo por completo sua tranquilidade em função de algo que o consome? No caso, os dois são vítimas e necessitam de cuidados, cada um em seu contexto.

Ás vezes a terapia se torna necessária para as pessoas aprenderem a lidar com esse ciúme, a pessoa que sofre com o ciúme do parceiro deve procure entender porque se deixa dominar por alguém que lhe limita por completo, aceitando abrir mão de seu direito e liberdade de relacionar-se com as pessoas e com o mundo. Já o ciumento deve procurar tanto ajuda psicoterapêutica como talvez medicamentosa, pois o tratamento abrange tanto o lado emocional quanto o físico. É uma doença que pode ser tratada à base de antidepressivos, que aliviarão e muito os sintomas, devolvendo à pessoa a liberdade de viver. A psicoterapia paralela à medicação é fundamental para que se trabalhem questões ligadas ao aparecimento do ciúme, geralmente envolvendo dinâmicas familiares complicadas, insegurança e autoestima baixa, entre outras.

Assim é preciso que ambos reaprendam a relacionar-se sem o controle, e o ciumento se libertar da angústia da dúvida para experimentar o prazer de um relacionamento “saudável”, onde ambos possam compartilhar momentos de tranquilidade, sem ter que abrir mão de sua individualidade ao mesmo tempo. Isso é possível, basta querer.

 

 

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